domingo, 16 de maio de 2010

Breve reflexão sobre arte e criação...


Em tempos remotos, o artista era o artesão. O carpinteiro. O homem capaz de recriar a cadeira. Digo recriar, pois segundo Platão a tal cadeira e todas as coisas fabricadas pelo homem, a priori estavam lá... No mundo das idéias. O artesão precisava apenas construir a cadeira que melhor funcionasse, mas, que mal haveria se fosse uma bela cadeira? Neste momento ele se torna o artista. A essência da arte é a criação. É a “materialização” da subjetividade humana. É o momento em que Beethoven criou o motivo rítmico mais marcante da história para sua Quinta Sinfonia. É a angústia de Munch em sua obra mais conhecida "O grito", e é a melodia que surge no improviso do jazz. Escolher cores para uma tela; escolher as notas e a duração de cada uma delas para criar melodias ou as palavras para escrever belas poesias. O momento da criação tem mesmo algo de divino, mas é acima de tudo uma experiência humana. O que precisa ser contado também é que os artistas têm que estudar, adquirir técnica e conhecer o que estão fazendo para construir a sua obra. O que Beethoven faria com sua idéia rítmica se nunca tivesse visto um piano? Munch certamente não pintaria "O grito" se nunca tivesse estudado pintura.  O artesão sem técnica e ferramentas, jamais criaria sua própria cadeira. A arte não é feita apenas com talento, mas também com muito estudo, trabalho e dedicação.

Ruan de Castro

O Fetichismo na música e a regressão da audição

No artigo "O Fetichismo na música e a regressão da audição" de 1938, Adorno faz uma crítica às transformações sofridas pela música quanto aos seus meios de produção, de difusão, filosofia e finalidade, em um contexto social de crescimento do capitalismo e da industria cultural. Adorno critica a massificação da cultura através da padronização de elementos formais. O autor traça uma linha que separa o que ele chama de “música séria” a música erudita, e “música ligeira” a música comercial e "industrializada". O fato observado por Adorno é que a industria da cultura de massa promove uma formatação musical com finalidade comercial, o que segundo o autor, torna a música descartável, promovendo a decadência do gosto e a regressão da audição. Alem disso, a música como produto vendável torna-se um fetiche para a sociedade consumista. Suas maiores críticas são contra o jazz, que neste contexto é a música que domina as rádios e que segundo ele, seria uma música adequada para um salão de festas, mas jamais poderia ser apreciada como uma sinfonia. Os arranjadores dessas músicas "instantâneas", cometeriam diversos “erros” do ponto de vista da teoria musical erudita considerando seus padrões de arranjo e orquestração. Segundo Adorno, a padronização dos arranjos neutraliza o gosto do ouvinte. A música de três minutos tem efeito momentâneo, logo é substituída por outra e a música cada vez mais torna-se pano de fundo para outras ações. O que Adorno descreve como a regressão da audição é a incapacidade de parar para ouvir e prestar atenção em uma música. A música formatada exime o ouvinte e o compositor de responsabilidade por que a “música ligeira” é destituída de significados, tendo apenas finalidade comercial. O que adorno condenava em 1938, foi designado recentemente pelo termo “enlatados”, que significa “música formatada que atende a demanda da indústria cultural de massa”. De fato, as observações de Adorno fazem sentido ao observarmos a evolução da industria cultural. O rádio, ainda hoje é principal meio de comunicação de massa, condenado por Adorno por difundir o jazz em detrimento da música erudita.O Rádio foi o principal meio de difusão da música popular no mundo todo ao longo do século XX.  Sua trajetória está inserida e subordinada à sua conjectura social. Um exemplo disso é a censura à produção artística que ocorreu no Brasil durante o período ditatorial, onde as rádios não somente eram censuradas, mas foram instrumentos de manipulação da opinião pública e de outras relações sociais. Adorno previa que a comercialização da música, levaria à um ciclo de produção em que a música teria mais objetivos comerciais do que propriamente artísticos. 

No Brasil, um exemplo de sucesso comercial é o grupo “É o tchan”. O esquema da pesquisadora Mônica Leme no livro “Que Tchan é esse?”, explica o panorama em que o grupo “É o tchan” alcança enorme sucesso no Brasil na década de 90. O esquema mostra que o grupo se enquadra em uma lógica de produção que enfatiza o estilo em detrimento do conteúdo, sendo movido pela fabricação de imagens e signos como atrativo para o consumo do produto musical. Utiliza intesamente os meios de comunicação disponíveis para sua difusão. A televisão é responsável pela transmissão da imagem do grupo que apresenta dançarinas com pouca roupa executando coreografias de conotação sexual. As letras das músicas são formadas por versos de duplo sentido, também com conotação sexual, permitida e aceita pela sociedade em um momento político de ideologia liberal. O esquema ainda apresenta este tipo de composição teria como sua Matriz cultural, a vertente maliciosa do lundu. O que Adorno criticava, é o que impera no contexto social dos anos 80 e 90 no Brasil em relação ao mercado e a industria cultural. A música do grupo “É o Tchan” é feita para ser vendida. É produzida nos formatos industriais com duração de três minutos para CDs, shows e videoclipes. O grupo cumpre os rituais da indústria se apresentando em programas de rádio e televisão, martelando na cabeça dos ouvintes a chamada “música de trabalho”; para qual se move exclusivamente toda uma estrutura de divulgação desta música que logo será substituída por outra nos mesmos moldes. O que Adorno descreve como regressão da audição e degeneração do gosto, produzidos pela indústria cultural, e a forma como descreve em seu texto o ouvinte “moderno” em relação ao jazz, pode ser identificada na forma de recepção das músicas do grupo “É o Tchan” como:  repetição de clichês de música para carnaval, repetição de elementos rítmicos, das melodias, dos tipos de escalas, das seqüências harmônicas e do formato musical utilizado. A regressão da audição seria decorrente da padronização do "produto" exigida pelo mercado. Esta forma de trabalho tem configurado a música popular do século XX nos países capitalistas. E não há como discordar... em qualquer gênero musical, existem elementos padronizados que se repetem e os identificam, e que possibilitam serem rotulados e colocados em uma prateleira.



Ruan de Castro


* Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno foi um dos mais importantes pensadores do século XX. Filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor, Adorno é um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt.